O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu derrubar as leis municipais que proibiam o ensino de temas relacionados a gênero e sexualidade nas escolas de Petrolina, no Sertão de Pernambuco. A Corte considerou, na quarta-feira (15), que as normas violam princípios constitucionais.
Além de Petrolina, o município de Garanhuns, no agreste de Pernambuco, e Tubarão, em Santa Catarina, também foram alvo da decisão. A ação ADPF 522 foi apresentada pelo PSol contra as leis pernambucanas.
Durante a decisão, o ministro Alexandre de Moraes fez duras críticas às leis e destacou o caso de Petrolina, que proíbe o ensino da disciplina denominada ideologia de gênero e o uso de livros didáticos na grade curricular da rede municipal e privada, além de vetar obras sobre educação sexual nas bibliotecas municipais.
“Se formos para a Petrolina, e aqui há um grave problema, um problema histórico nos mais de 5 mil municípios brasileiros, a associação municipalista às vezes faz um exposto de uma lei, e isso acaba passando igual ao raciocínio de pólvora em várias câmaras. Petrolina, século XXI, com redes sociais e tudo, parece brincadeira o que a lei diz […] o legislador de Petrolina vive não sei onde”, disse o ministro.
Moraes ressaltou que o argumento de que tais proibições “preservam a infância” é equivocado.
“Preservar a infância não significa escondê-la da realidade, omitir informações sérias e corretas sobre identidade de gênero, sobre educação sexual”, disse.
Ele lembrou que crianças e adolescentes são expostos diariamente, por meio das redes sociais, a conteúdos distorcidos sobre o tema.
“Todos os dias, pelas redes sociais, as crianças e adolescentes são bombardeadas com informações totalmente distorcidas sobre ideologia de gênero, sobre gênero, sobre questões sexuais. E as mesmas pessoas, os mesmos grupos, que defendem que as redes sociais podem tudo, podem bombardear com mentiras, com ensinos falsos, com estudos falsos sobre essa questão, são os mesmos que defendem a aprovação dessas leis que querem impedir uma educação de temas sexuais sérios, uma educação séria. A liberdade de expressão, para essas pessoas, existe para o discurso de ódio contra a população LGBT nas redes sociais. Só que não existe a liberdade de expressão e a liberdade de ensino nas escolas para o antídoto a esse discurso de ódio.”, relatou Moraes.
Aprovação da lei em Petrolina
Em reportagem publicada em janeiro de 2018, o Portal Preto no Branco destacou que mesmo após ter recebido um abaixo-assinado reivindicando a garantia dos direitos LGBT em todas as esferas de Petrolina, o então prefeito, Miguel Coelho, sancionou a Lei nº 2.985. De autoria do vereador Elias Jardim (PHS), a lei, que estava em vigor desde o dia 19 de dezembro de 2017, proibia as atividades pedagógicas que visassem a reprodução do conceito de Ideologia de Gênero na grade de ensino das redes municipal e privada da cidade.
A lei estabelecia que a utilização, elaboração, publicação, exposição e distribuição de livros que abordassem ou se referissem, direta ou indiretamente, sobre ideologia de gênero, diversidade sexual e educação sexual, bem como a distribuição de livros didáticos nas escolas e bibliotecas da cidade, estavam terminantemente proibidas.
A responsabilidade direta pelo cumprimento da lei recaiu-se, solidariamente, aos dirigentes, diretores e ao secretário municipal a qual a escola ou a biblioteca estivesse vinculada.
Na época, o PNB conversou com Eduardo Rocha, presidente da Associação Sertão LGBT do Vale do São Francisco. Para ele, a sanção da lei, além de contribuir para a disseminação do ódio e da violência entre as minorias, evidenciava o descomprometimento do então prefeito Miguel Coelho com os movimentos sociais.
“Estamos nos perguntando: que “novo tempo” é esse que o governo promete? Continuamos vendo uma gestão conservadora, que colabora para a ignorância das gerações futuras, uma gestão que tira nossos direitos, direitos de ser, existir, pensar e aprender a respeitar o diferente. Não só a população LGBT está tendo direitos atacados, mas também a toda população de mulheres, de negros e negras, bem como os direitos humanos em geral”, ressaltou o representante na ocasião.
Eduardo relembrou que no dia 21 de setembro de 2017, durante a Marcha da Diversidade no aniversário de Petrolina, o então gestor recebeu uma carta com mais de 500 assinaturas, reivindicando a garantia das demandas da população LGBT.
“Ele desceu para receber a tal carta se colocando a disposição em frente as câmeras, e na primeira oportunidade ele sanciona uma lei que proíbe desconstruir preconceito, uma lei que nos mata todos os dias e nos matem na invisibilidade. Repudiamos tal atitude do senhor prefeito”, disse Eduardo que complementou dizendo que “Nossa sociedade merece respeito, e respeito só vem através da educação”.
Também em entrevista ao PNB na época, o vereador Gilmar Santos (PT), que ao lado da vereadora Cristina Costa (PT), se manifestou veementemente contra o projeto na ocasião da votação do dia 7 de dezembro de 2017, também repudiou a sanção de Miguel Coelho.
“Em um país onde mais se mata LGBT’s no mundo, um a cada 25 horas, discutir gênero nas escolas é uma necessidade que pode tornar efetivo o compromisso da educação com a vida, com a justiça, com as liberdades individuais e com a cultura de paz. Negar-se a ele, ou pior, proibir esse compromisso por parte do educador que deve ofertar o conhecimento acerca do que está na fundamentação desses problemas é uma outra violência, a violência da invisibilidade que não mata diretamente, mas deixa morrer”, disse o vereador.
O projeto
Com a bíblia não mão, falando em “nome de Deus” e argumentando “defesa da família e das crianças de Petrolina”, o vereador evangélico Elias Jardim (PHS) aprovou no dia 7 de dezembro de 2017, o projeto de lei nº 132/2017.
Durante a sessão, que contou com a presença de representações do movimento de mulheres e da comunidade LGBT, alguns manifestantes demonstraram indignação e reagiram ao discurso do vereador evangélico, chamando-o de “fascista”.
O projeto foi aprovado em segunda discussão por 12 votos a favor e 2 contra.
Várias instituições e entidades, como a Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (Compir) e o Conselho Municipal de Direitos Humanos (CMDH), repudiaram a aprovação do projeto pela câmara de vereadores de Petrolina.
Redação PNB