O Complexo de Estocolmo é um fenômeno psicológico curioso: a vítima passa a admirar, respeitar e até defender o agressor. Síndrome da sobrevivência, dizem alguns. Ironia da mente, dizem outros. Pois bem: olhando para nós, brasileiros, não é difícil encontrar ecos desse comportamento em escala nacional.
Temos um país continental, rico em recursos, cultura e talento. Mas basta alguém do norte, não geográfico e sim geopolítico, erguer a voz, que já corremos a bater continência. Basta o american way of life piscar para cá, que muitos esquecem da própria bandeira e, sem cerimônia, hasteiam a de outro país em pleno Dia da Pátria.
E o paradoxo é cruel: enquanto os Estados Unidos impõem embargos econômicos cada vez mais prejudiciais a nossa economia, dificultam acordos e jogam duro nas mesas de negociação internacional, parte dos brasileiros segue apaixonada por eles, sequestrados num sentimento revanchista que só agride o nosso país. É como se ignorássemos as cicatrizes deixadas por décadas de dependência e continuássemos a aplaudir de pé quem nos põe de joelhos.
Essa postura, que Nelson Rodrigues já chamava de complexo de vira-lata, é combustível para algo ainda mais perigoso: a polarização cega. Quando a identidade nacional se rende ao culto a símbolos estrangeiros, não sobra espaço para reflexão crítica. O que fica é um país dividido entre quem idolatra o estrangeiro e quem o demoniza, enquanto esquecemos de olhar para dentro e resolver os nossos próprios impasses.
Esses brasileiros lembram aquele sapo insistente: por mais que seja enxotado de casa, volta a pular na soleira, tentando entrar de novo, como se o tapa ou a vassourada fossem um convite à permanência. É a teimosia da submissão, o desejo quase infantil de ser aceito onde claramente não somos bem-vindos.
O verdadeiro perigo não é ter simpatia por culturas diferentes, nem se encantar com filmes, músicas ou invenções alheias. O perigo é deixar de se reconhecer no próprio espelho. É achar que a nossa bandeira é feia, que o nosso hino é cafona, que o nosso jeito é sempre inferior.
No fundo, talvez ainda sejamos mesmo, reféns de um sequestro antigo: o da autoestima nacional. Enquanto não resgatarmos a capacidade de admirar o que é nosso, continuaremos a aplaudir o agressor, felizes em ostentar bandeiras que não nos pertencem, como se pedir desculpas por existir fosse a sina dessa gente tão besta.
Por João Gilberto Guimarães Sobrinho é cientista social, escritor e produtor cultural