Ao longo de décadas a humanidade vive o fantasma das ameaças nucleares, sobretudo no que tange às insanas guerras ativas em todo o mundo. Mesmo diante destes cenários, na pauta de graves problemas ambientais, políticos, econômicos e sociais, as usinas nucleares são vistas, por alguns, como uma solução para a crescente demanda energética. Isso porque é uma instalação capaz de gerar energia elétrica por meio de reações nucleares controladas, utilizando o elemento urânio como combustível. De acordo com a Agência Brasil, há 437 reatores nucleares em operação em todo o mundo, e Estados Unidos, França e China lideram a lista de maior quantidade de usinas nucleares em seus territórios.
É importante recordar, a Usina Nuclear de Chernobyl (1986), localizada ao norte da Ucrânia, foi palco de um grave acidente nuclear que gerou impactos na atmosfera, afetando regiões da Europa como Rússia, Belarus, Noruega, Suécia e Finlândia. A nuvem radioativa chegou a possuir mais de 100 km, cerca de 8,4 milhões de pessoas foram contaminadas com a radiação, e mais de 50 pessoas morreram por dia devido à forte contaminação e exposição do ar, que possuía produtos radioativos. O meio ambiente da região foi modificado por completo, os animais passaram pelo processo de mutação, o ar, o solo e a água foram contaminados por completo.
Não é apenas o caso de Chernobyl que trouxe grandes preocupações quanto à produção e uso das usinas nucleares. A humanidade já guarda no seu portfólio atômico as tragédias de Fukushima, no Japão, que em 2011, expôs os riscos dessa fonte de energia, causando devastação ambiental e deslocamentos populacionais. Já Kyshtym, na Rússia, no ano de 1957, sofreu uma explosão que liberou toneladas de material radioativo. Aqui no Brasil, ressalta-se o caso de Angra 1, localizada em Angra dos Reis (RJ). Em setembro de 2023, a empresa Eletronuclear, responsável pela geração de energia nuclear no país, foi multada pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais (IBAMA), sob a acusação de vazamento de material radioativo no mar. Hoje uma das regiões que vivem sob a ameaça dessas sombras nucleares é a região do Vale do São Francisco.
A partir de 2009, o município de Itacuruba, no sertão pernambucano, tornou-se o epicentro de uma discussão que mistura ciência, política e futuro energético: a possível construção de uma usina nuclear na região do Vale do São Francisco. A proposta, encabeçada pela Central Nuclear, promete impulsionar o desenvolvimento econômico e a geração de energia no Nordeste, também levanta dúvidas sobre impactos ambientais, sociais e culturais em uma área de rica biodiversidade e forte presença de comunidades tradicionais.
Itacuruba
Desde o ano de 2009, o município de Itacuruba, no sertão pernambucano, tornou-se o epicentro de uma discussão que mistura ciência, política e futuro energético: a possível construção de uma usina nuclear na região do Vale do São Francisco. A proposta, encabeçada pela Central Nuclear, que promete impulsionar o desenvolvimento econômico e a geração de energia no Nordeste, levanta dúvidas sobre impactos ambientais, sociais e culturais em uma área rica em biodiversidade e forte presença de comunidades tradicionais.
Situada às margens do Rio São Francisco, a 466 km de distância da capital pernambucana – Recife -, Itacuruba é definida como a cidade de menor população do estado, contando com 4.284 habitantes, de acordo com o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado no ano de 2022. É importante mencionar que essa região hospeda numerosa população tradicional, a exemplo das comunidades quilombolas Ingazeira, Negros de Gilu e Poços do Cavalo; e os povos indígenas distribuídos entre os Pankará no Serrote dos Campos, Tuxá Campos e Tuxá Pajeú.
Na década de 1988 a cidade precisou ser reconstruída em decorrência da Usina Hidrelétrica de Itaparica que inundou não somente a chamada “Itacuruba Velha”, como também Petrolândia – PE e Rodelas – BA, trazendo transtornos aos moradores das cidades, que precisaram se realocar em lugares próximos, como, por exemplo, Inajá, Ibotirama, Nova Itacuruba e até mesmo na cidade mineira Pirapora.
Tal episódio resultou na quebra de vários laços familiares, que se dividiram entre essas regiões, desencadeando alarmante número de pessoas que fazem uso de antidepressivos, bem como o maior índice de suicídio, que ultrapassa a média mundial, sendo quase seis vezes maior que esta, consoante pesquisa feita em 2006 pelo CREMEPE, Conselho Regional de Medicina. Não somente por isso, mas a perda de terras férteis e da identidade cultural também colaboraram para que, atualmente, Itacuruba ficasse conhecida como a cidade da depressão e suicídio, cenário este que é fortalecido pela falta da visão de futuro profissional.
Vale ressaltar que moradores são inteiramente rejeitados e excluídos no planejamento da construção da usina e só souberam da proposta através de instituições que trabalhavam no município e tiveram conhecimento do projeto, vagamente, por meio dos veículos midiáticos, especificamente o Blog Jornal do Commercio (JC). Neste momento, tornara-se uma especulação; não se sabia ao certo se tal informação era verídica ou não.
Segundo o antropólogo Whodson Silva, que trabalha no projeto Nova Cartografia Social, nunca houve, desde o início das atividades, diálogos diretos com as comunidades. “Até 2018, mais ou menos, alguns órgãos oficiais diziam que o caso de Itacuruba era um boato, mesmo que houvessem estudos e diversos debates já expostos muitos ainda insistiam em dizer que isso era um boato e que, na verdade, não se tinha uma decisão de que ali seria de fato a construção […]”, relatou sobre a ausência de esclarecimento com a população desta região.
“Em 2019, mais ou menos, houveram algumas audiências públicas, e isso muito em razão da própria população e, sobretudo, dos povos indígenas e quilombolas que se organizaram e se articularam no movimento antinuclear e começaram a reivindicar essa questão das informações.”, declara o antropólogo, no que tange às ações antinucleares promovidas pelas comunidades dessa região.
As diversas mobilizações desses sertanejos, como a Caravana Antinuclear em Pernambuco e a Carta de Itacuruba, em outubro de 2011, a Carta em defesa a vida e em repúdio a implementação de novas usinas nucleares no Brasil, em especial no município de Itacuruba, Pernambuco, em junho de 2019 e a Carta de Floresta, em novembro desse mesmo ano, evidenciam as buscas por informações sólidas sobre a Central Nuclear, além do descontentamento da população e o quanto eles rejeitam a ideia de implementação dessa nova usina nuclear em território brasileiro.
Mesmo diante da oposição dos povos e comunidades tradicionais, o governo do Estado de Pernambuco ou órgãos concernentes ao projeto jamais deram respostas concretas aos habitantes e, ainda hoje, mais informações sobre a usina são uma grande incógnita e muitas pessoas não têm conhecimento desse planejamento.
Consequências para o Vale do São Francisco
A construção de uma usina no Vale do São Francisco, traz consequências e perigos para a vida humana e de todos os ecossistemas. Se não bastasse todos os impactos socioambientais que o Velho Chico tem atravessado ao longo de séculos, a possibilidade de uma Usina Nuclear na Bacia seria uma ameaça muito grave e para sempre.
As usinas nucleares demandam sempre muita água, daí o propósito de serem construídas próximas de rios. O Rio Pripyat de Chernobyl foi usado na usina com o propósito de resfriamento para os reservatórios. Com o acidente o fluxo da água da usina foi comprometido. A queda de resíduos radioativos, gerou fortes consequências para quem consumia a água do rio, e o sistema hídrico passou por mudanças, levando a modificação tanto do ecossistema aquático quanto do solo.
O que representaria para o São Francisco um acidente nuclear, caso esta usina viesse a ser de fato construída na Bacia? Segundo os relatos do antropólogo Whodson Robson da Silva que já trabalhou na Nova Cartografia Social, com indígenas e quilombolas de Itacuruba: “Por ser uma região que compreende diversas populações, povos e comunidades tradicionais, a construção de uma usina em uma cidade no interior do vale do São Francisco, implicará cada vez mais outras regiões que estão próximas e interligadas pelo o Rio […]” relatando também que: “Os rejeitos radioativos podem levar a região a ser um eterno depósito, interferindo na vida das pessoas e nas formas de socialização e cultura com Rio São Francisco.”
Talvez parte da população da Bacia do São Francisco desconheça esta terrível ameaça. O projeto da Usina, em si, já traz grandes impactos e retraumatiza a vulnerável população de Itacuruba. É importante que este assunto seja pauta de todo o país que possui alternativas, de sobra, para produção de energia baseada em outras fontes. A história de impactos socioambientais no São Francisco não suporta mais um capítulo que traz esta grave ameaça radioativa que é a proposta de construção de uma Usina Nuclear.
Por Maria Luiza Martins, Rayza Rocha, Samuel Oliveira, Tayná Feitosa e Wanny Andrade/estudantes de jornalismo UNEB/Juazeiro










