Falta ao brasileiro consciência de classe. Talvez essa seja uma das maiores tragédias sociais do país. Muitos dos que atacam programas sociais vivem, direta ou indiretamente, dos efeitos positivos que eles geram na economia. O pequeno comerciante vende mais quando o pobre pode comprar. A feira movimenta quando há renda circulando. O mercadinho do bairro, a farmácia, o açougue, o vendedor ambulante e até grandes redes varejistas lucram e contratam mais quando existe dinheiro na mão da população mais pobre. Criticar o Bolsa Família sem compreender isso é ignorar como funciona a própria economia brasileira.
Recentemente, o apresentador Luciano Huck afirmou, durante um fórum empresarial, que cidades com forte presença do Bolsa Família poderiam acabar desestimulando a saída das famílias do programa. Usando como exemplo o município de Senhor do Bonfim, Huck declarou que “ao concentrar 56% da sua economia no Bolsa Família, você não gera nenhum estímulo para elas saírem”.
A fala repercutiu nacionalmente e recebeu resposta do ministro de Assistência Social, Família e Combate à Fome do Brasil, Wellington Dias, que classificou a declaração como fruto de desinformação e preconceito contra os mais pobres. Segundo o ministro, os números apresentados não correspondem à realidade econômica de Senhor do Bonfim, cuja economia é sustentada principalmente pelo comércio, pelos serviços, pelo turismo, além da agropecuária e da indústria.
Para além de uma disputa de versões, o episódio revela um problema recorrente no debate público brasileiro: a tentativa constante de transformar pobreza em culpa moral. Existe uma narrativa muito conveniente para setores da elite econômica e midiática segundo a qual o pobre é pobre porque “não quer trabalhar”, porque “se acostumou com ajuda” ou porque “prefere viver de benefício”. A realidade, porém, é completamente diferente.
Grande parte das pessoas que recebem o Bolsa Família trabalha. São trabalhadores informais, diaristas, agricultores, vendedores ambulantes, entregadores, empregadas domésticas, mães solo e milhões de brasileiros que vivem em empregos precários, mal remunerados e sem estabilidade. O programa não substitui trabalho. Ele complementa renda e garante condições mínimas de sobrevivência para famílias que frequentemente enfrentam jornadas exaustivas apenas para conseguir colocar comida na mesa.
Os próprios dados do governo desmontam o discurso de que o Bolsa Família cria acomodação. Segundo Wellington Dias, quase 10 milhões de pessoas deixaram o programa nos últimos anos justamente porque melhoraram de vida, conseguiram emprego ou aumentaram sua renda como pequenos empreendedores. Se o programa gerasse dependência permanente, esses números simplesmente não existiriam.
Além disso, beneficiários do Cadastro Único e do Bolsa Família estão entre os que mais ocupam novas vagas de emprego no país. Isso acontece porque a transferência de renda cria uma base mínima de estabilidade para que famílias possam procurar trabalho, investir em pequenos negócios e manter os filhos na escola. Não se trata de “dar dinheiro sem retorno”, mas de estimular a economia local e reduzir desigualdades históricas.
O Bolsa Família também possui reconhecimento internacional. O modelo brasileiro de transferência de renda inspirou políticas públicas em mais de uma centena de países e se tornou referência mundial no combate à pobreza extrema. Não é coincidência. Países desenvolvidos compreenderam algo que parte da elite brasileira ainda se recusa a aceitar: distribuir renda movimenta a economia, reduz violência, melhora indicadores sociais e amplia oportunidades.
Existe ainda uma profunda contradição no discurso de quem critica o Bolsa Família enquanto defende isenções bilionárias para grandes empresas, perdão de dívidas fiscais e privilégios históricos para os mais ricos. Quando o Estado ajuda banqueiros, grandes empresários ou setores do mercado financeiro, chamam de incentivo econômico. Quando ajuda o pobre a comprar arroz, feijão e gás de cozinha, chamam de assistencialismo.
No fundo, o debate sobre o Bolsa Família revela muito mais sobre a visão de mundo de quem critica do que sobre o programa em si. O problema nunca foi o dinheiro destinado aos pobres. O problema é que, para alguns, pobre só é aceitável quando permanece invisível, silencioso e resignado à própria miséria.
Por João Gilberto Guimarães Sobrinho é escritor e Cientista Social formado pela Universidade Federal do Vale do São Francisco